Sou escultora e poeta. Espero que os meus poemas lhes sejam úteis. Obrigada.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

do livro: Poemas Breves

.


Motivo

Porque alguém, além de mim,
pode querer ouvir a música que escuto.




Águas-fortes

Viver e escrever.
Como jorrar, impune,
efervescente.
Por não caber em si,
por não dormir,
sonhar.
Viver, viver!...
morrer ou transbordar.




Histórias inventadas

Não coleciono selos
nem silêncios.
Colho histórias inventadas
para um álbum de família.
Meu Deus!
em que rua eu moro mesmo?




A pedra e o musgo

Longe do meu olhar
passa o instante,
leva o poema,
liberta a pedra e o musgo,
vai-se o encanto.
Outros poemas virão,
mas nunca mais
outra pedra igual,
outro musgo imortal,
este canto.




Tributo aos meus pais

Sem o jardim das lembranças,
me sinto órfã de estrelas.




Sobre/vivências

Meu maior medo
é o de envelhecer
sem que possa alimentar
mais uma infância
com os fios da música que ouço.
Eu teria que esquecer
que sou poeta.




Potencial

O que será que veio primeiro?
o outono ou a semente?
Eu trago a idéia de Deus em mim.




Sinto

Sinto...
não sei se por espanto
ou por instinto
sinto que enquanto um eu
se prende a este plano
outros mais lúcidos
povoam o infinito.





À beira do rio

À beira do rio
rio e silencio.
À beira do rio
já não sinto frio.
À beira do rio
beiro quem eu sou.
À beira do rio
sou rio e vou.




Animais guardiões

Minha baleia acrobata
meu cavalo de fogo
meu búfalo alado,
embriagados de vento e alegria,
na pradaria,
em mar aberto,
na primavera,
em disparada,
como discos-voadores,
ou como anjos-da-guarda.




Aquela chuva

Aquela chuva lá fora...
ela e só ela...
Aquela chuva lá fora,
que não parei pra ver,
que não vivi pra ouvir,
aquela chuva lá fora
não vai parar de cair,
não vai parar de gemer,
enquanto eu não a trouxer
pra dentro de minh’alma
que está incompleta
por falta de chuva.




Metafísica global

Amarra-me ao teu mastro,
ó Navio!
Mundo hipnótico.




Sob um olhar do futuro

Não sei se gostava de mim.
Vi que seus olhos
estavam abertos,
vi que cismavam cativos,
navegantes de um mar infalível.
Vi, e vi com meus olhos de hoje,
que oscilavam em ondas bem pálidas,
mas que, de alguma forma
(indefinida ainda),
não me queriam por perto.
Então saí. Não fugi, mas deixei
aquele estranho território
e não voltei nunca mais.
Até hoje me pergunto:
seriam os olhos da morte
ou de uma vida ainda indefinida?
Não sei. Só sei que eram belos e
que gostavam de andar a esmo,
assim como faço.




À meia-luz

Ah, claridade!
quando afinal em ti
verei minha luz?




Maria, Maria

Acorda, Maria!
eu sei, não é dia.
Mas acorda, Maria!
se és tão Maria
não és tanto sol.
A noite te chama
e ainda é vazia.
Desperta, Maria!
e me empresta teus sonhos
que um dia nasceram
enquanto eu dormia.




Sobre a chuva

Sobre a chuva, Nicanor,
preciso ainda lhe dizer
que ela vai chegar,
que ela vai voltar,
como algo que ecoa
em meus ouvidos,
ávida por se esbanjar
em seiva e sangue,
em telhados antigos,
em ladeiras recentes,
-bela como sempre!-
se eu pintar
o meu chapéu de verde
ou escrever lá fora
a palavra tempo.




Praias secretas

Caem sobre meu corpo
de cruz e redenção
asas não tecidas por mim,
mas que amei nas borboletas,
na areia das praias secretas,
na espuma do tempo que vai
e me leva nos ombros.




Cantata

Canta pra mim, Raphael,
a canção do amor eterno.
Estou tão tarde!...



Passado a limpo

Passa pelos meus olhos
a transparência dos primeiros anos,
quando as manhãs me preparavam
para a grande festa
e meus olhos,
e meus olhos de hoje
ainda eram promessa.
Por estes,
os pequeninos enfeitavam a mesa,
e se abriam, dançantes,
atrevidos.
Por aqueles,
me chegam as palavras
que hoje escrevo.




Grand finale

Uma flauta...
uma flor...
meu grand finale.


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