terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
do livro: Orbital
Permissão
Sim! deixar-me ir!
Deixar-me deslumbrar!
Surpreender-me pelo antigo,
novo e imutável verso.
Rios! mananciais! celeiros! aguardai-me.
Quero tirar meu véu ainda hoje
e permitir-me o gesto do abandono.
Ó deus do amor!
leva-me em teus passos
e na secreta calidez das formas
revela-me a estrada.
Vapores múltiplos!
auroras permeáveis! já estou
pronta para o vosso abraço.
Debaixo do sol
De março a março
a rua anda,
e eu vivi demais pra não saber
que as flores falam.
São sete horas.
Das dez às dez
um rio vai voltar a ser azul,
e eu vivi demais pra não saber
que tudo pode ser de novo
como sempre foi.
Orbital
Por favor, Deus!
Não tire de mim
essa mania de olhar de novo
as estações que chegam.
Pra que meu mundo
gire sempre a Sua volta.
O caminho
A estrada? nem tanto.
Mas os desvios... tão belos!
Eis o caminho que canto.
Hora mágica
Às seis da tarde
todas as rochas
têm memórias que flutuam.
As seis da tarde
elefantes se ajoelham,
fascinados.
Às seis da tarde
nem os sinos sabem tanto
sobre o vento.
Dobradura
O menino da manhã
veio correndo
para mais cedo
viver sua alegria.
Da curvatura do tempo
ele fez marco
e desdobrou o dia.
Ciranda das horas
Pra isso estamos aqui.
O brilho da areia escorreu,
as roupas secaram,
tudo o que resta
é a sempre ciranda das horas,
pulando amiúde, se abrindo...
Pra isso estamos aqui.
Não compre sapatos demais,
meu amor,
dancemos descalços.
Pra isso entramos na roda.
Limites
Metamorfoses!
o que quereis de mim
agora que me entrego?
Bem sei que as borboletas
cantam enquanto durmo.
Mas, que fazer?
Tenho o vício de morrer
a cada pôr-de-sol!
Paisagem de pedra
Longe do mundo,
aqui nessas pedras,
é quando fico mais leve.
Aqui, nessas pedras,
na intimidade lunar da paisagem,
é que aprendo a estar na matéria,
no meio do mundo e lá longe:
como pedra que rola,
como gente que achou seu lugar.
Águas da tarde
Tarde das águas calmas
longe do insípido,
tarde do olhar voltado
ao momento líquido,
eu quero essa
em cada sol e lua.
Eu quero a vida nua
nas águas dessa tarde!
Retorno
Na natureza nada envelhece
nada permanece
tudo se evapora.
Quando morrer vou chover.
Magnetismo
Como se não fôssemos capazes
de dançar assim tão leves
pelo espaço,
fizeram leis de aço.
Sábios deuses
todos eles que nos testam:
imantaram nossos pés.
Objetos mágicos
Eu penso que esse dia não existe.
Não existe a água
que está no jarro
ou o jarro que está na mesa
mesa no chão,
chão da Terra que não há.
Assim concluo que coisas
não são exatamente coisas
e pensamentos não são
exatamente pensamentos.
Tudo é só uma tendência flexível
- criada e destrutível -
no infinito campo das possibilidades.
Uni-verso
Mas do que é que estou falando?
Das flores que vejo no jarro
ou do jarro que vejo nas flores?
Como, da perda e do encontro, nasce o poema
O poeta observa.
Quem vai, quem se perde,
quem cumpre o destino
do barro, é o andarilho.
E quando o poeta que observa
e o andarilho que se perde
se encontram,
nasce o azul das hortênsias,
a prata da casa,
nasce o anel da aliança
nos orbes celestes,
e o poema, pelo sal e pela água,
é afinal, batizado.
Motivo de força maior
Porque tudo cai do céu
lavo minhas mãos
pra recolher o pólen das estrelas.
O que seria?
Seriam anjos voando
aquelas folhas caindo?
Sim.
Seria Deus se encontrando
naquelas almas subindo.
Outras águas
Depois de alcançar o horizonte
é bem possível caminhar
sobre outras águas.
Poema de giz
É outro o cachorro que late,
em outra vida, outra parte,
em outro céu, outra margem,
de um tempo outro, surgindo;
é outra esfinge - decifra-me!
numa só alma aprendiz.
É outro o pó da estrada,
outro cabelo, outra imagem
neste poema de giz.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
do livro: Poemas Breves
Motivo
Porque alguém, além de mim,
pode querer ouvir a música que escuto.
Águas-fortes
Viver e escrever.
Como jorrar, impune,
efervescente.
Por não caber em si,
por não dormir,
sonhar.
Viver, viver!...
morrer ou transbordar.
Histórias inventadas
Não coleciono selos
nem silêncios.
Colho histórias inventadas
para um álbum de família.
Meu Deus!
em que rua eu moro mesmo?
A pedra e o musgo
Longe do meu olhar
passa o instante,
leva o poema,
liberta a pedra e o musgo,
vai-se o encanto.
Outros poemas virão,
mas nunca mais
outra pedra igual,
outro musgo imortal,
este canto.
Tributo aos meus pais
Sem o jardim das lembranças,
me sinto órfã de estrelas.
Sobre/vivências
Meu maior medo
é o de envelhecer
sem que possa alimentar
mais uma infância
com os fios da música que ouço.
Eu teria que esquecer
que sou poeta.
Potencial
O que será que veio primeiro?
o outono ou a semente?
Eu trago a idéia de Deus em mim.
Sinto
Sinto...
não sei se por espanto
ou por instinto
sinto que enquanto um eu
se prende a este plano
outros mais lúcidos
povoam o infinito.
À beira do rio
À beira do rio
rio e silencio.
À beira do rio
já não sinto frio.
À beira do rio
beiro quem eu sou.
À beira do rio
sou rio e vou.
Animais guardiões
Minha baleia acrobata
meu cavalo de fogo
meu búfalo alado,
embriagados de vento e alegria,
na pradaria,
em mar aberto,
na primavera,
em disparada,
como discos-voadores,
ou como anjos-da-guarda.
Aquela chuva
Aquela chuva lá fora...
ela e só ela...
Aquela chuva lá fora,
que não parei pra ver,
que não vivi pra ouvir,
aquela chuva lá fora
não vai parar de cair,
não vai parar de gemer,
enquanto eu não a trouxer
pra dentro de minh’alma
que está incompleta
por falta de chuva.
Metafísica global
Amarra-me ao teu mastro,
ó Navio!
Mundo hipnótico.
Sob um olhar do futuro
Não sei se gostava de mim.
Vi que seus olhos
estavam abertos,
vi que cismavam cativos,
navegantes de um mar infalível.
Vi, e vi com meus olhos de hoje,
que oscilavam em ondas bem pálidas,
mas que, de alguma forma
(indefinida ainda),
não me queriam por perto.
Então saí. Não fugi, mas deixei
aquele estranho território
e não voltei nunca mais.
Até hoje me pergunto:
seriam os olhos da morte
ou de uma vida ainda indefinida?
Não sei. Só sei que eram belos e
que gostavam de andar a esmo,
assim como faço.
À meia-luz
Ah, claridade!
quando afinal em ti
verei minha luz?
Maria, Maria
Acorda, Maria!
eu sei, não é dia.
Mas acorda, Maria!
se és tão Maria
não és tanto sol.
A noite te chama
e ainda é vazia.
Desperta, Maria!
e me empresta teus sonhos
que um dia nasceram
enquanto eu dormia.
Sobre a chuva
Sobre a chuva, Nicanor,
preciso ainda lhe dizer
que ela vai chegar,
que ela vai voltar,
como algo que ecoa
em meus ouvidos,
ávida por se esbanjar
em seiva e sangue,
em telhados antigos,
em ladeiras recentes,
-bela como sempre!-
se eu pintar
o meu chapéu de verde
ou escrever lá fora
a palavra tempo.
Praias secretas
Caem sobre meu corpo
de cruz e redenção
asas não tecidas por mim,
mas que amei nas borboletas,
na areia das praias secretas,
na espuma do tempo que vai
e me leva nos ombros.
Cantata
Canta pra mim, Raphael,
a canção do amor eterno.
Estou tão tarde!...
Passado a limpo
Passa pelos meus olhos
a transparência dos primeiros anos,
quando as manhãs me preparavam
para a grande festa
e meus olhos,
e meus olhos de hoje
ainda eram promessa.
Por estes,
os pequeninos enfeitavam a mesa,
e se abriam, dançantes,
atrevidos.
Por aqueles,
me chegam as palavras
que hoje escrevo.
Grand finale
Uma flauta...
uma flor...
meu grand finale.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
do livro: Totalmente Azul ou Quase Vinho
Aos mestres, com carinho
Cecília disse: ‘eu passo.’
Quintana, ‘eu passarinho.’
Quanto a mim, ainda semente,
pra onde vou se nem vinho?
Sagração
Que meus lábios
se convertam ao vinho
dos deuses mais sedentos,
e minhas mãos
- domesticáveis mãos -
saúdem o canto santo
e este me consagre.
Que o bélico que em mim persiste
se curve ao belo
que se faz presença
em cada nicho do cotidiano.
E que o Poeta Maior
os meus pecados literários
possa perdoar.
Canção dos barcos que voltam
Se é pra vencer, meu amor,
olhemos o mar em silêncio
pra não calar as Nereidas.
Do inesquecível
Madrugada ainda...
um galo.
Eu não teria como entrar no dia
não fosse um galo
que nunca ouvi,
que nunca vi,
batendo as asas,
frenético, errático,
em algum quintal inesquecível.
Minha prioresa
Essa é a minha cabra montesa:
a dos jogos malabares,
a que campeia
no cume dos montes
e salta garbosa
traçando arabescos.
Essa é a dona do meu monastério
onde folhas e linhas
e plumas e penas
recolhem poemas
de um céu ilegível.
Esse é meu olhar...
até hoje o menos restrito
e queira Deus
o mais habitável.
Efeito vitral
Procura-se um rastro,
um papel em pedaços,
um furo no escuro,
uma fresta, uma festa...
encontra-se o sol!
A cigarra
À revelia da lua
não dou ênfase à fase
porque a cigarra
que hoje canta é eterna.
Ao Vinho
Ao vinho, sim.
Ao sabor febril do vinho
os versos de Dionísio
na sua eterna ânsia
de calor e êxtase.
À vida,
às mil vidas vegetais
sacrificadas no altar da terra
(onde uvas polidas já cintilam),
eu te proponho este
holocausto lírico
numa sagrada imolação
do sonho envelhecido.
É que...
É que a vida, meu amor (de tão antiga),
transformou o ouro-sépia em sentimento.
Quietudes
Hora silenciosa,
aquela em que a saudade
chega de manso, pé ante pé,
dispondo os taças na mesa,
a mesma mesa onde
alguns amigos e eu nos reuníamos.
É quando as samambaias
recolhem seus dedos
que há pouco apontavam o vazio.
E choram comigo.
Águas doces
De longe
todas as montanhas são azuis.
Algumas são montanhas.
Outras são monges,
menestréis, harpias...
E tem também aquelas,
que se enfeitam de branco
em pleno frio do inverno.
Mas o que importa mesmo,
é que, de perto,
todas elas continuam sendo azuis.
Mesmo quando suas águas
as deixam para trás.
Mesmo quando desmoronam.
Luz e sombra
Luz e sombra são íntimas deusas
que mostram, gentis, a beleza da vida.
O dia
Hoje é o dia
das faxinas costumeiras,
das abadias vistas de relance.
Retratos, relíquias, mantas,
mantas velhas, tudo ao sol.
Pra serem desinfetadas.
Hoje é o hoje ontológico,
rearrumado na estante.
Minha mãe diria:
- Vá devagar, minha filha.
Mas o dia é meio.
Amanhã vou ver Jonas
Amanhã saberei se o mar dirá sim,
assim que acordá-lo.
Por enquanto, é esta pobre
eternidade dentro da baleia.
Mas amanhã vou ver Jonas.
Ah, que bom que amanhã
vou ver Jonas!
Como sempre sonhei,
retornaremos juntos
à terra-nunca-vista,
e como sempre pensei,
só pra vadiar. Com Deus.
Sempre com Deus,
mas só pra redimir
os outros bons meninos.
Festival da primavera
Aceso o fogo,
só faltam os besourinhos.
E rompe-se o silêncio de uma casca.
O louco
Lá vai o tocador de flauta.
Sempre que o vejo, ele está
sentado em alguma sombra
à margem da estrada,
ou caminhando com
seu cão obediente.
Ele vai alegre.
Ele não tem nada
além de uma flauta e da mochila
que leva daqui pra ali,
de uma vida pra outra
e, claro:
com seu cão obediente,
despertando a paisagem.
Longe é um caminho
Espaço!... eu vos direi
que longe é um caminho
que cabe na paisagem.
Nossas varandas
Ah, essas molduras de capa...
nossas varandas nada escondem,
olha! aconchegantes que são,
elas nos mostram a claridade natural do dia.
O último a chegar vai ver o sol se por.
E vai saber que é ali (quando
não há ninguém a espreitá-las),
que as avezinhas (nossas almas), pousam.
Como se fossem espantalhos,
nos deixam a sorte do trigo.
Como se fossem agasalhos:
o pão, o grão e o livro.
Amanhã, depois de ver Jonas
Ainda estou aqui dentro,
e porque estou aqui dentro,
o sol é uma aranha,
assim como todas as luas,
e todas as columéias.
Quando eu for lá pra fora,
não sei que bichos e plantas
terão oito vidas
num infinito de pernas;
mas amanhã,
depois de ver Jonas,
saberei algo mais sobre a teia
e o céu das ervilhas.
Metafísica do muro
Fragilidade do mundo...
Podemos tombar o muro
mas perdemos o direito
de atravessá-lo.
O céu cairia e era apenas
um átomo de espuma.
Minguante
Trágica lâmina...
seria rastro?
Pórtico da lua.
Um dia, meu amor
Um dia, meu amor,
olharemos do alto
as águas movediças,
entendendo nosso esforço
pra chegar à margem.
Um dia, meu amor,
num jeito novo
de aprender as coisas,
abriremos nossos medos
sobre a relva
só pra passear nas densas matas,
sem que os monstros
do passado nos seduzam.
Para os deuses mais atentos
Alguém tocaria flauta
e dançaríamos felizes
debaixo dos flamboyants.
Sempre. Fora dos templos,
liquens! musgos!
para os deuses mais atentos.
A baleia de Jonas
A cortina se abrindo...
como um palco
onde falsas mentiras
nos mostram segredos,
assim é a noite,
essa estranha mistura
de luz e ilusão.
Para Jonas seria a baleia.
Ausência
No fundo de cada saudade
está a saudade da eterna presença.
Ausente de nós, somos ainda.
Por isso quebramos brinquedos
e choramos infâncias.
Cata-vento
Que os filhos não me bastam,
mesmo bons, mesmo presentes,
cato conchas e estrelas
para um mundo que reclama:
Alguém quer parir a paz?
Espelho meu
Espelho, espelho meu...
e ele não respondeu.
O Vento da colina
Quando o tempo passar
levando as conchas,
haverá ainda o vento manso
da colina azul.
Ele acordará de novo
o cão e o tocador de flauta.
E mansamente herdará a Terra.
A Terra que um dia
teve um manto azul.
A mensagem noturna do pássaro-pedra
A tarde se foi.
A linguagem sem forma
da pedra pensante
(pedra pensante ...
o que será que ela sente?)
passou pelo vento
levando a mensagem.
Ninguém sabe até hoje
o que ela sentiu,
mas a noite, coberta ou deserta,
brilhou na paisagem.
Agenda
Rememorável:
o morro dos ventos... uivantes?
Deduzível:
a morte do corpo indefeso.
Conclusão... só a leveza da mão
eterniza a flor que rompe a aurora.


