Aos mestres, com carinho
Cecília disse: ‘eu passo.’
Quintana, ‘eu passarinho.’
Quanto a mim, ainda semente,
pra onde vou se nem vinho?
Sagração
Que meus lábios
se convertam ao vinho
dos deuses mais sedentos,
e minhas mãos
- domesticáveis mãos -
saúdem o canto santo
e este me consagre.
Que o bélico que em mim persiste
se curve ao belo
que se faz presença
em cada nicho do cotidiano.
E que o Poeta Maior
os meus pecados literários
possa perdoar.
Canção dos barcos que voltam
Se é pra vencer, meu amor,
olhemos o mar em silêncio
pra não calar as Nereidas.
Do inesquecível
Madrugada ainda...
um galo.
Eu não teria como entrar no dia
não fosse um galo
que nunca ouvi,
que nunca vi,
batendo as asas,
frenético, errático,
em algum quintal inesquecível.
Minha prioresa
Essa é a minha cabra montesa:
a dos jogos malabares,
a que campeia
no cume dos montes
e salta garbosa
traçando arabescos.
Essa é a dona do meu monastério
onde folhas e linhas
e plumas e penas
recolhem poemas
de um céu ilegível.
Esse é meu olhar...
até hoje o menos restrito
e queira Deus
o mais habitável.
Efeito vitral
Procura-se um rastro,
um papel em pedaços,
um furo no escuro,
uma fresta, uma festa...
encontra-se o sol!
A cigarra
À revelia da lua
não dou ênfase à fase
porque a cigarra
que hoje canta é eterna.
Ao Vinho
Ao vinho, sim.
Ao sabor febril do vinho
os versos de Dionísio
na sua eterna ânsia
de calor e êxtase.
À vida,
às mil vidas vegetais
sacrificadas no altar da terra
(onde uvas polidas já cintilam),
eu te proponho este
holocausto lírico
numa sagrada imolação
do sonho envelhecido.
É que...
É que a vida, meu amor (de tão antiga),
transformou o ouro-sépia em sentimento.
Quietudes
Hora silenciosa,
aquela em que a saudade
chega de manso, pé ante pé,
dispondo os taças na mesa,
a mesma mesa onde
alguns amigos e eu nos reuníamos.
É quando as samambaias
recolhem seus dedos
que há pouco apontavam o vazio.
E choram comigo.
Águas doces
De longe
todas as montanhas são azuis.
Algumas são montanhas.
Outras são monges,
menestréis, harpias...
E tem também aquelas,
que se enfeitam de branco
em pleno frio do inverno.
Mas o que importa mesmo,
é que, de perto,
todas elas continuam sendo azuis.
Mesmo quando suas águas
as deixam para trás.
Mesmo quando desmoronam.
Luz e sombra
Luz e sombra são íntimas deusas
que mostram, gentis, a beleza da vida.
O dia
Hoje é o dia
das faxinas costumeiras,
das abadias vistas de relance.
Retratos, relíquias, mantas,
mantas velhas, tudo ao sol.
Pra serem desinfetadas.
Hoje é o hoje ontológico,
rearrumado na estante.
Minha mãe diria:
- Vá devagar, minha filha.
Mas o dia é meio.
Amanhã vou ver Jonas
Amanhã saberei se o mar dirá sim,
assim que acordá-lo.
Por enquanto, é esta pobre
eternidade dentro da baleia.
Mas amanhã vou ver Jonas.
Ah, que bom que amanhã
vou ver Jonas!
Como sempre sonhei,
retornaremos juntos
à terra-nunca-vista,
e como sempre pensei,
só pra vadiar. Com Deus.
Sempre com Deus,
mas só pra redimir
os outros bons meninos.
Festival da primavera
Aceso o fogo,
só faltam os besourinhos.
E rompe-se o silêncio de uma casca.
O louco
Lá vai o tocador de flauta.
Sempre que o vejo, ele está
sentado em alguma sombra
à margem da estrada,
ou caminhando com
seu cão obediente.
Ele vai alegre.
Ele não tem nada
além de uma flauta e da mochila
que leva daqui pra ali,
de uma vida pra outra
e, claro:
com seu cão obediente,
despertando a paisagem.
Longe é um caminho
Espaço!... eu vos direi
que longe é um caminho
que cabe na paisagem.
Nossas varandas
Ah, essas molduras de capa...
nossas varandas nada escondem,
olha! aconchegantes que são,
elas nos mostram a claridade natural do dia.
O último a chegar vai ver o sol se por.
E vai saber que é ali (quando
não há ninguém a espreitá-las),
que as avezinhas (nossas almas), pousam.
Como se fossem espantalhos,
nos deixam a sorte do trigo.
Como se fossem agasalhos:
o pão, o grão e o livro.
Amanhã, depois de ver Jonas
Ainda estou aqui dentro,
e porque estou aqui dentro,
o sol é uma aranha,
assim como todas as luas,
e todas as columéias.
Quando eu for lá pra fora,
não sei que bichos e plantas
terão oito vidas
num infinito de pernas;
mas amanhã,
depois de ver Jonas,
saberei algo mais sobre a teia
e o céu das ervilhas.
Metafísica do muro
Fragilidade do mundo...
Podemos tombar o muro
mas perdemos o direito
de atravessá-lo.
O céu cairia e era apenas
um átomo de espuma.
Minguante
Trágica lâmina...
seria rastro?
Pórtico da lua.
Um dia, meu amor
Um dia, meu amor,
olharemos do alto
as águas movediças,
entendendo nosso esforço
pra chegar à margem.
Um dia, meu amor,
num jeito novo
de aprender as coisas,
abriremos nossos medos
sobre a relva
só pra passear nas densas matas,
sem que os monstros
do passado nos seduzam.
Para os deuses mais atentos
Alguém tocaria flauta
e dançaríamos felizes
debaixo dos flamboyants.
Sempre. Fora dos templos,
liquens! musgos!
para os deuses mais atentos.
A baleia de Jonas
A cortina se abrindo...
como um palco
onde falsas mentiras
nos mostram segredos,
assim é a noite,
essa estranha mistura
de luz e ilusão.
Para Jonas seria a baleia.
Ausência
No fundo de cada saudade
está a saudade da eterna presença.
Ausente de nós, somos ainda.
Por isso quebramos brinquedos
e choramos infâncias.
Cata-vento
Que os filhos não me bastam,
mesmo bons, mesmo presentes,
cato conchas e estrelas
para um mundo que reclama:
Alguém quer parir a paz?
Espelho meu
Espelho, espelho meu...
e ele não respondeu.
O Vento da colina
Quando o tempo passar
levando as conchas,
haverá ainda o vento manso
da colina azul.
Ele acordará de novo
o cão e o tocador de flauta.
E mansamente herdará a Terra.
A Terra que um dia
teve um manto azul.
A mensagem noturna do pássaro-pedra
A tarde se foi.
A linguagem sem forma
da pedra pensante
(pedra pensante ...
o que será que ela sente?)
passou pelo vento
levando a mensagem.
Ninguém sabe até hoje
o que ela sentiu,
mas a noite, coberta ou deserta,
brilhou na paisagem.
Agenda
Rememorável:
o morro dos ventos... uivantes?
Deduzível:
a morte do corpo indefeso.
Conclusão... só a leveza da mão
eterniza a flor que rompe a aurora.
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