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Tenda dos labores
Agulhas fagulhas
destilagem de aromas
sucessão de pontos
e afinal o quadro:
Os sonhos voam quando revelados!
Dos longes
Não só do que é
são feitas as coisas que são,
mas também do que deixa de ser
quando o sonho se perde,
quando a alma encurvada
não gera mais fome.
Não... não só do que é
se faz a dança do sangue,
o sagrado cocar do guerreiro;
e na flecha que aponta
nem só os olhos acertam.
Reinos que tardam a surgir
das Somálias tristonhas,
dos longes dos longes...
agora suas redes se esgarçam,
mas pobres de nós
que não vemos.
Não... nem só do próximo gesto
- uma flor, um apelo - é feita
uma doce manhã de dezembro
no gume da espada.
O que quero levar
Dos mares e das marés
o mesmo aroma de beijo maduro
no fim da jornada.
E eu vou.
Feito à mão
Mas vem aí o verdureiro.
Ele vem a pé,
ele plantou, cuidou...
E quem é que consegue esperar
pela morte quando se espera
por um verdureiro?
Lembranças preciosas
A flor a dança o colar,
a carta a pedrinha do anel...
Entre a poeira e o poema
há uma caixinha fechada
que os dedos não tocam,
o peito rejeita,
e o adeus não suporta.
Entre a poeira e o poema
há preciosas lembranças
que podem abrir nossos olhos.
Um e outro
Um fabrica seu sangue.
Outro cospe seu hálito por hábito.
Um se atinge de frente
se sente se cala. Outro fala.
Um resvala idéias primeiras,
prementes, sem se consumir
ou se consumar.
Qual será?
Quem é que de tão perto
está longe,
que de tão forte falhou,
que de tão oco pedra caos,
curtido está em sua plenitude?
Do pó, do calo mais rude,
quem sendo luz se apagou?
Prece ao Rei do Tempo
Não me dê pressa, meu Pai.
Por favor, não me dê pressa.
Ainda preciso de barro
pra moldar um rio.
Ainda preciso de palavras
pra dizer que terra é terra
água é água
e que a morte não é coisa
tão assim que tanto.
O Fotógrafo
Fotografou uma pedra,
um gongolo, outra flor,
outro grito de estalo.
Não se contentando
com tantas espécies,
fotografou o arco-íris.
Pronto. No varal de poesia
não faltaram as estrelas maiores
nem os grãozinhos nos frascos,
brilhando iguais
sob a luz do seu flash.
Baixo relevo
Contra um céu em chamas,
silhuetas a carvão,
e solidão num metal imaginário.
Às iguanas de Garcia Lorca
Ainda precisamos
de rascunho, meu irmão:
pra lavar a roupa,
pra secar a lágrima,
pra passar a vida a limpo
e (como dizia o poeta),
e pra sonhar, pra sonhar!
Antes que chequem as iguanas.
Obra prima
Desenhar uma casa,
um caminho,
um domínio de si.
E seguir desenhando
uma casa,
um caminho,
um labirinto de formas,
até que a cores flutuem,
e a gente desenhe, no fim,
um simples ponto que fique.
Humanessências
Teares, flores, remansos...
O resto é ruminância
ou transcendência.
As tecelãs do dia
As tecelãs não pararam
de tecer os portos.
Vieram navios
e houve bombardeio.
As tecelãs não pararam
pra contar os corpos.
Elas tecem os véus da claridade.
Perguntarás: como?
As tecelãs não param
pra nos responder.
Nem a claridade
que elas vão tecendo.
Oração dos poetas
Que minha poesia, Senhor,
seja sempre essa:
a da alegria
dos que atravessam um rio
sem saber nadar.
Espelho mágico
Os sábios pensam,
os espelhos refletem.
Mas todo espelho é mágico.
Balé secreto
Imóvel: lábios, gestos, sentimentos... tudo.
Música no ar, luares, brisa...
não adianta o insistente apelo.
Na prateleira o mundo/palco é mudo.
A bailarina de pedra não se inclina
à poderosa mão que a criou.
Mas quem a vê secreta e íntimo recua
até chegar ao mágico escultor,
divisa o gesto claro da leve bailarina
saudando o gesto raro do observador.
Um menino
Um menino toma banho de rio.
A água fria beira a sua boca
e ele brinca.
A água no fundo da água
é clara e quente.
Na alma o tempo pára.
Então não há mais nada no mundo
a não ser um menino
que toma banho de rio.
E ele brinca.
Fogão à lenha
Fogão à lenha,
panela cheia,
feijão aceso.
Teia de aranha
Tece a teia, aranha, tece!
Não temas. Teima!
Arranha o espaço
em passo lento. Tece!
Teima contra tudo
que não te merece. Tece!
Faz a tua casa
tecendo a minha porta.
Não importa.
Canto da hora breve
Por esse instante
ardeu na chama o último mistério.
Por esse instante voaram vozes,
criaram os anjos
todos os folguedos.
Por esse instante,
breve e colossal,
os deuses prepararam
nossas mãos:
pra que chegássemos em casa
e acendêssemos sozinhos a lareira.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
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